Transformação Digital na Regulação do SUS: O Papel da Teleinterconsulta na Média Complexidade
Entrevista com Simone Souza
A enfermeira Simone Souza dedica a vida a processos que podem trazer melhorias à saúde da população. Formada em enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é Mestre em Gestão de Tecnologia e Inovação em Saúde pela Faculdade Sírio-Libanês, de São Paulo. Catarinense de São Joaquim, cresceu no município vizinho de Lages e possui cerca de duas décadas de experiência na área de saúde pública. Viveu na Itália durante seis anos, onde trabalhou no setor de UTI cardiológica pós-operatória e teve contato com processos de alta tecnologia, o que mudou a sua visão sobre saúde pública.
De volta ao Brasil, tornou-se servidora pública em Massaranduba onde trabalhou como enfermeira de família e coordenadora de atenção primária, até se tornar secretária de Saúde do município. Lá, entre outros desafios, recebeu um hospital pronto, recém-construído, porém fechado, por falta de recursos para operar. Em oito meses, Simone Souza entregou o equipamento funcionando. Depois disso, em Joinville, trabalhou na central de regulação ambulatorial, onde ajudou a estruturar o processo regulatório digital e foi diretora de Assistência à Saúde.
Em Florianópolis, assumiu o cargo de diretora do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Santa Catarina (COSEMS), tendo atuado durante a pandemia da Covid-19 no aperfeiçoamento do acesso à saúde pública à distância, fazendo uso de processos digitais. Acredita que o futuro da saúde pública no Brasil passa pelo conceito de saúde 5.0, no qual a tecnologia, vai muito além de digitalização dos processos e atendimentos, é direcionada às pessoas. Fundadora e CEO da Techcare Tecnologia e Humanidade no Cuidado, dedica-se a levar a saúde digital com inovação e sustentabilidade para pequenos e médios negócios.
Revista Agilizamed
Como você vê hoje o problema da fila no Brasil? Quais fatores nos trouxeram a esta realidade?
Simone de Souza
Há diversos fatores que nos levam à fila. Faltou um processo estruturado que olhasse para isso. A primeira portaria que falava da política nacional de regulação no Brasil é a 1.559 de 1º de agosto de 2008. Nós estamos em 2025, mas, por muitos anos, isso não foi nem olhado e é necessário que haja uma estrutura para o município ter uma central reguladora: precisa de equipamentos, uma equipe dedicada e de um médico regulador com esta experiência, pois não é qualquer médico que consegue fazer regulação. Acho que é importante que as pessoas também compreendam o que é o processo regulatório e como que ele funciona, como que ele é estruturado.
Revista Agilizamed
Como vem sendo desenvolvido o processo regulatório?
Simone de Souza
O Sistema Único de Saúde (SUS) nasceu através da Constituição Federal de 1988 e, antes disso, o atendimento médico era garantido somente para trabalhadores formais. A constituição de 88 representou a ruptura de um sistema de saúde que era totalmente fragmentado e excludente. Nesse momento a atenção primária, também chamada de atenção básica, veio como uma das principais estratégias para alcançar saúde para todos, conforme a Declaração de Alma- Ata de 1978, e, tornou-se a porta de entrada preferencial do SUS, além de trazer os propósitos de organizar o cuidado, coordenar os fluxos assistenciais (regulação) e promover continuidade do cuidado, em uma estrutura geral. O que é correto, mas nem sempre acontece. O paciente entra pela atenção primária e quando ele precisa de tratamento especializado ele trava, justamente aí. Então o histórico é o seguinte: o SUS é de 1998 e somente 10 anos depois, em 2008, veio a Política Nacional de Regulação. E a Política Nacional que trata da atenção especializada é de 2023. Acredito que nova Política possa dar algum estímulo para a (re) construção do processo regulatório. Então…, essa própria estruturação do sistema, junto a uma questão de financiamento e gestão de recursos, ajuda a explicar a questão da fila.
Outra questão é que, muitas vezes, o secretário da saúde não tem um conhecimento específico sobre o processo regulatório e, não tendo esse entendimento (que é mais técnico), de como funciona a regulação, como ele vai olhar e priorizar a atuação sobre os desafios do processo regulatório? E quando é que ele percebe que a jornada do paciente travou em alguma fila? Quando os pacientes começam a bater na porta dele dizendo que estão esperando há um ano, dois anos, três anos, cinco anos, por uma consulta especializada ou uma cirurgia. O problema já é grande e tende a ficar maior ainda se não agirmos sobre ele.
Revista Agilizamed
Como é a remuneração dos especialistas que atuam pelo SUS?
Simone de Souza
Este é outro problema: a baixa remuneração dos médicos especializados pelo Sistema Único de Saúde. Isso afasta esses profissionais. Há um financiamento do governo federal para a atenção especializada que paga R$11,00 por uma consulta especializada, porém o custo médio real da consulta especializada, pode variar de
R$ 60,00 a R$ 80,00 ou mais, a depender da região do Brasil ou da especialidade. Aí, o gestor municipal tem de bancar a diferença com os recursos próprios do município e já é possível visualizar o desequilíbrio nas contas públicas. Pela Emenda Constitucional nº 29 de 2000 e Lei Complementar nº 141 de 2012, o município deveria dispender, pelo menos, 15% dos recursos próprios com ações e serviços públicos de saúde e, como não existe um valor máximo de investimento, para tentar atender as reais necessidades da população, há municípios que investem, em média, 25 a 40%, ou mais, de seus recursos próprios, para o Sistema Único de Saúde do município funcionar, então, o que acontece, é que o município vai precisar complementar a diferença em todas as consultas especializadas realizadas. Aí ele recebe os 11 reais pela tabela nacional do SUS e complementa o restante com recursos próprios.
Revista Agilizamed
E isso representa quanto no valor da consulta?
Simone de Souza
Varia bastante, mas hoje, no mínimo, uma consulta especializada, através dos consórcios públicos ou contratualizações próprias, vai custar em torno de R$ 60,00 a R$ 80,00, a depender da região do Brasil. A minha visão mais ampla é do Sul do país, mas eu tenho um pouco de vivência também em outros lugares, onde a situação é ainda mais complexa, tanto pela necessidade de médicos especialistas, quanto pela falta de recursos próprios para complementar os valores. Aqui no Sul estamos falando de uma região onde a situação é uma das melhores, dentro deste contexto geral. Predomina uma outra realidade quando comparado à situação dos municípios de outras regiões do Brasil quando falamos de consultas especializadas e atendimentos de média complexidade.
Revista Agilizamed
E como ocorre o acesso presencial da população aos médicos especialistas?
Simone de Souza
Então, aí existe também um desafio: o acesso físico da população aos médicos por causa das longas distâncias. O Brasil tem um território gigantesco. Temos pacientes que tem de viajar 12 horas, 15 horas, uma noite inteira, para fazer uma consulta especializada num município de maior porte. Só para ter uma ideia, em Santa Catarina, por exemplo, aproximadamente 80% dos municípios são de pequeno porte (menos de 20.000 habitantes). Considerando os 295 municípios catarinenses, isso equivale a cerca de 236 municípios nessa faixa populacional e, consequentemente, com restrição de acesso pela ausência de especialistas no município e devido às distâncias dos locais com maior capacidade de atendimento.
Então, os municípios de maior porte realizam esse apoio dentro de uma determinada região. Mas eles são poucos e ficam sobrecarregados. A distribuição é regionalizada, porém não é suficiente neste modelo. Vou dar o exemplo do município de Joinville, o maior de Santa Catarina com, aproximadamente, 600 mil habitantes. Por mais que o município se organize para atender a esta população, há sempre uma carência, uma demanda reprimida, pois Joinville, na área especializada, precisa atender outros 26 municípios das regiões norte e nordeste de Santa Catarina, dependendo da especialidade. Isso acontece muito com doenças oncológicas, ortopedia, neurologia, por exemplo, pois nos maiores centros é que estão localizados os serviços de referência e os especialistas.
Revista Agilizamed
Se no Sul do Brasil já existem muitas dificuldades, qual é a realidade nas outras regiões do país?
Simone de Souza
Quando falamos da Região Norte do Brasil, onde não há estradas, e grande parte dos deslocamentos ocorre por barco, a situação fica ainda mais complicada. Quando é possível, o SUS faz com que o barco com um médico de família vá até a população. Mas, há casos em que as populações ribeirinhas e os municípios enfrentam desafios imensos. Os deslocamentos têm de acontecer com muitos dias de antecedência e é preciso haver recursos públicos para garantir esses deslocamentos. Chegando ao local, os profissionais ainda precisam ver onde vai ocorrer os atendimentos. E aí entra mais um problema, os prontuários digitais. Quando a gente fala de atendimento digital, é preciso levar em conta o alcance da rede de internet no Brasil. Então, são vários fatores que contribuem para a existência de filas de espera e dificuldade de acesso para consultas especializadas.
Revista Agilizamed
E, sem considerar a falta de recursos e as distâncias, existe um número suficiente de especialistas no Brasil para atender à população?
Simone de Souza
Depende da especialidade. Um bom exemplo é a neuropediatria. Há poucos profissionais dispostos a atender pelo SUS. E, entre aqueles que se dispõem a atender, há carência de especializações específicas e de experiência numa das áreas que existe uma enorme demanda: o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Trata-se de uma área muito sensível, onde é difícil fechar o diagnóstico em tempo oportuno. Geralmente, quanto antes se obtém o diagnóstico, maiores são as chances de um tratamento mais efetivo.
Também é difícil conseguir que psiquiatras, de forma geral, atendam pelo SUS até em municípios de maior porte. No interior, então, o atendimento presencial por médicos dessa especialidade é desafiador. Então, a gestão da fila depende de três fatores: do número de especialistas disponíveis, do valor que é pago para cada especialista, do número de vagas ofertadas por cada especialidade e, por fim, da disponibilidade de deslocamento desse especialista aos municípios de menor porte ou das possibilidades dos municípios para realizar o transporte dos pacientes até o local de referência para o atendimento necessário.
Revista Agilizamed
Diante desse contexto, o Agilizamed surge como uma solução. Pode haver redução de custos pelos municípios com a adoção do sistema desenvolvido pela Agilizamed?
Simone de Souza
A gente pode afirmar que o município vai, com o tempo, reduzir os seus custos. Mas temos que considerar se já existe um parque tecnológico implantado, pois as teleinterconsultas por meio da plataforma da Agilizamed precisam ser feitas de forma remota e utilizando a tecnologia. O médico generalista, que faz o atendimento presencial ao paciente no município, precisa acessar a plataforma para preencher os dados no sistema e enviar ao médico especialista por internet.
Se for preciso implantar a rede de internet, haverá um aporte inicial do município para fazer essa adequação. O Brasil tem investido nesse sentido com a criação do Programa SUS Digital, criado por meio da Portaria nº 3.232, de março de 2024. Antes disso, já havia um outro programa do governo federal chamado Informatiza APS, visando a informatização do serviço de atenção primária, ou seja, para a aquisição de computadores e sistema de internet voltado aos serviços de saúde dos municípios.
Revista Agilizamed
E quais são as outras vantagens deste modelo de atendimento de saúde?
Simone de Souza
A teleinterconsulta é uma modalidade que permite a interlocução entre médicos generalistas e especialistas sobre o caso de um mesmo paciente. Assim, a resolutividade da atenção primária se amplia por meio da teleinterconsulta. Ou seja, teoricamente, é possível resolver até 85% dos problemas do paciente na atenção primária. Porém, se o paciente começa a ser encaminhado pelo clínico geral para a fila das consultas especializadas presenciais, sem uma análise mais precisa e encaminhamentos com insuficiência de informações e, muitas vezes, até incompreensíveis, isso não significa resolver o problema. Ao contrário, isso só aumenta as filas pela realização de encaminhamentos desnecessários. Ao passo que, utilizando a teleinterconsulta, são evitados os encaminhamentos sem necessidade aos especialistas, o tempo de atendimento do paciente é abreviado, são reduzidos os riscos para aquelas pessoas que realmente necessitam de consultas especializadas com maior urgência e, por consequência, existe a real possibilidade de fazer a gestão da fila e evitar apenas que ela “cresça” a cada dia.
Revista Agilizamed
Já existem dados que comprovam isso?
Simone de Souza
Sim. Há uma pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no estado do Mato do Grosso do Sul, publicada em novembro de 2024, sobre esse tipo de atendimento. Para 44,1% dos médicos de família ouvidos na pesquisa, a teleinterconsulta viabiliza a troca rápida e eficiente de conhecimentos entre os especialistas e promove uma abordagem mais colaborativa e abrangente no tratamento de casos clínicos complexos. Na opinião de 42,5% dos médicos, houve uma redução significativa do tempo de espera em filas de atendimento especializado. E 37,8% dos profissionais afirmam que a redução do número de encaminhamentos para consultas presenciais tem sido uma vantagem significativa no uso da teleinterconsulta.
Revista Agilizamed
A teleinterconsulta é uma tendência?
Simone de Souza
É mais do que isso. A teleinterconsulta carrega consigo um novo conceito para a realidade brasileira que é o da saúde 5.0, ou seja, tratar o atendimento à saúde com uma abordagem inovadora, tendo o paciente como o centro do cuidado, de maneira personalizada, através do uso da tecnologia. Além da possibilidade de obter mais qualidade e eficácia nos atendimentos da atenção primária, reduzir os deslocamentos para atendimento presencial, em função da maior celeridade do processo através de encaminhamentos qualificados, e, diminuir os custos com tratamentos de alta complexidade por ter diagnosticado, tardiamente, os pacientes, devido à espera nas filas.
Revista Agilizamed
Quais são as outras vantagens que você aponta?
Simone de Souza
Com a implantação de redes de internet nas unidades públicas de saúde e a incorporação de tecnologias como conectividade digital, Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial e prontuários eletrônicos, o sistema passou a operar com foco em eficiência, integração de dados e digitalização de processos assistenciais e administrativos. Esse movimento deu origem ao conceito de Saúde 4.0, voltado à automação, interoperabilidade e gestão inteligente dos serviços. Com os avanços da Sociedade 5.0 — conceito originado no Japão e atualmente difundido em saúde por instituições como a Organização Mundial da Saúde —, emergiu um novo paradigma: a Saúde 5.0, que amplia o papel da tecnologia para além da automação. Agora, o centro do cuidado volta-se ao ser humano. A tecnologia torna-se um meio para promover bem-estar, personalizar a jornada do paciente, humanizar o cuidado e fortalecer o protagonismo do cidadão sobre sua própria saúde. Essa abordagem ressignifica os avanços da Saúde 4.0 ao integrar ética, empatia, saúde mental, inclusão digital, experiência do paciente e equidade no acesso aos serviços, sem renunciar à inovação tecnológica.
Neste contexto, vejo claramente que o uso da teleinterconsulta como ferramenta estratégica do processo regulatório, como realizado pela Agilizamed, materializa os princípios da Saúde 5.0 — ao unir tecnologia, resolutividade e cuidado centrado nas pessoas, especialmente na regulação ambulatorial no SUS.
Preciso destacar que se trata de um processo de inovação com baixo custo, comparado ao benefício que será gerado, tanto para o paciente quanto para o sistema público de saúde, pois existe economia de tempo e melhor gestão de recursos e das filas de espera.
No caso da plataforma Agilizamed, há ainda o diferencial de entregar a consultoria de apoio ao município para a estruturação e implantação do processo regulatório e trazer o sistema digital de teleinterconsulta com o atendimento do especialista, contemplando, no mesmo valor, o uso da plataforma e o valor da consulta especializada. O município não precisa mais “correr” atrás de especialistas e terá também o apoio da consultoria, que auxiliará o município na adaptação às exigências legais da Política Nacional da Atenção Especializada e, neste sentido, a Agilizamed se adiantou à legislação, visto que já havia planejado este modelo de atendimento.
